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No meio de caminho, um flamboyant, todo florido ...
Por: Prof. Luiz Gonzaga Silva
Pedem-me um artigo que aponte para a salvação do planeta em que vivemos, exatamente neste ano da graça de dois mil e onze, quando a Campanha da Fraternidade se apóia, exatamente, em temática ecológica.
Lembram-me de que eu não me esqueça do princípio básico de que ninguém vai resolver nada sozinho, mas se cada um fizer sua parte, poderemos, ainda, salvar o planeta do caos.
Não gosto muito dessas frases de efeito, cujo sentido se esgota nelas mesmas, e fica tudo como dantes no quartel do Abrantes.
Mas, escarafuncho minha memória e me recordo de um fato que me aconteceu em 1952 e persiste até hoje dentro de mim, com uma insistência não só nostálgica, mas fortemente ecológica.
Não sei se as pessoas, hoje, vão entender bem o que vou contar. Isto porque, na verdade, todo mundo fala muito em consciência ecológica e vive, infelizmente, em seu pequeno mundinho egológico. Coisas da nossa época, deixemos pra lá...
Vamos, no entanto, às minhas lembranças. Volto mais de meio século atrás, e vejo descerrar um quadro. Cursava eu, então, o quarto ano do curso primário.
Estamos em Guarany, no pátio do Grupo Escolar Francisco Peixoto, eu sou aquele ali, na frente, o mais baixinho. Reparem bem que eu estou com uma colher-de-sopa na mão direita, cheia de terra tratada, eu e cada um dos meus colegas.
As minhas colegas, não. Estão lado a lado de nós, em outra fila e cada uma delas porta um vidrinho com água. A escola toda, do turno da tarde está à nossa volta. D. Cidinha, nossa professora, toda orgulhosa de nós, nos dá os últimos retoques para a cerimônia que transcorreria daí a pouco, ali no pátio. À frente das duas filas, um colega nosso, com uma muda de flamboyant nas mãos, acho que era o Adilton, hoje conceituado médico em Juiz de Fora.
Passam-se uns minutinhos, e chega D. Edith, a Diretora da Escola, toda pronta, preparadíssima para conduzir, como uma espécie de sacerdotisa druida, aquela cerimônia, que obedecia, inclusive, a um ritual por ela imaginado e preparado.
Nesse momento, cantamos o Hino à Árvore:
Cavemos a terra, plantemos nossa árvore,
Que amiga bondosa ela aqui nos será,
Se um dia, ao voltarmos, pedindo-lhe abrigo,
Ou flores, ou frutos, ou sombra dará...
Só me recordo dessa estrofe, mas havia outras. E, enquanto as cantávamos, o Adilton depositou a muda na cova adredemente preparada e, antes de se afastar, deu um beijo em suas folhas. Cada aluno ou aluna, ao depositar na cova a colher de terra ou despejar a água do vidrinho, procedia da mesma maneira. Antes de nos afastarmos, já tínhamos depositado um beijo nas folhas da muda do flamboyant.
Foi um momento de pura emoção. D. Edith, ao final, não perdeu tempo. Aproveitou o ensejo e nos disse que, quando voltássemos a Guarany, já velhinhos, com rugas, cabelos brancos e uma artrose de permeio, fôssemos até ao Francisco Peixoto, não só rever a escola em que estudamos, mas para visitar o flamboyant que estávamos a plantar naquele momento.
E, poeta que era – ah! quem podia com a D. Edith!... – encerrou seu discurso dramaticamente:
"E podem crer, vocês todos, queridos alunos e alunas, se vocês vierem no mês de novembro, o flamboyant estará todo florido, ressoante de abelhas, na glória de sua cor toda banhada de dourado pelo sol, a lhes oferecer este espetáculo indescritível de que são merecedores só aqueles que amam a natureza, que a protegem, que a admiram, que a respeitam, que a preservam, que a defendem. Como vocês, como cada um de vocês.
E eu lhes digo, podem acreditar, é palavra da D. Edith: cada flor do flamboyant vai ser cada um dos beijos que vocês deram em suas folhas, hoje! Não é uma resposta linda desta Natureza tão linda?”
E se calou, comovida. Como calou, dentro de cada um de nós, aquela imagem que D. Edith usou, enfeitando-a, ao final, com o adjetivo linda, duas vezes.
Foi assim que nós, meninos daquela época, adultos maduros e meio senis, hoje, aprendemos a amar essa Natureza tão maltratada atualmente. E isso, sim, isso é que era educação ecológica. O que se faz hoje é muito barulho, pra quase nada...
Vou parando por aqui, está difícil continuar. Tudo parece meio ofuscado... Não sei se as lembranças a se desfazerem, não sei se uma que outra lágrima furtiva, desprendida de meus olhos, embaçando um pouco a lente dos meus óculos.
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